Alemanha e Espanha: o limite entre a dúvida e a convicção

Se há algo que a Copa do Mundo mostrou nesta quarta-feira foi a diferença entre a dúvida e a convicção. Claro que é mais fácil ser convicto em suas ideias, em sua forma de jogar, quando do outro lado está uma frágil Costa Rica, mais ainda quando uma vantagem no placar é estabelecida com dez minutos de futebol. E também é evidente que o cenário mais propício à dúvida se cria quando um time como o Japão, quase todo ele formado por jogadores de ligas importantes da Europa, dá uma guinada tática no jogo e expõe as suas debilidades. Espanha e Alemanha viveram jornadas bem distintas.

Era possível olhar para o campo e ver um primeiro tempo de manual da Alemanha. Domínio da bola, ocupação do campo adversário, e cinco homens atacando a linha de quatro defensores do Japão. O lateral-esquerdo Raum jogava aberto como um ponta, Gnabry ocupava a outra e três homens trabalhavam pelo centro: Musiala, dono de grande exibição, junto a Müller e Havertz. A Alemanha usava toda a largura do campo, criando opções pelo meio ou pela ponta, recuperando a bola rapidamente a cada perda.

Japão x Alemanha Copa do Mundo — Foto: Reuters

Japão x Alemanha Copa do Mundo — Foto: Reuters

Era o tipo de jogo que a Alemanha pretendia ver, refletido no placar quando Raum sofreu o pênalti convertido por Gundogan. Até ali, era justo falar numa Alemanha que fazia o jogo andar ao seu modo, convicta, fiel ao seu estilo. Mas com um detalhe. Por vezes, tinha uma posse deliberadamente lenta, uma excessiva preocupação com controle. No fundo, era como se o time se defendesse de algo. Mas de quê?

O segundo tempo responderia: a Alemanha se defendia dela mesma, das suas debilidades defensivas, algo que no primeiro tempo Rüdiger tratou de esconder nas raras escapadas de um Japão acuado. O jogo começa a mudar quando Hajime Moriyasu muda para uma linha de cinco defensores e três atacantes. Faz do atacante Ito um dos alas e do meia ofensivo Mitoma, do Brighton, o outro. Mais adiante, coloca Minamino, ex-Liverpool, e Doan junto ao atacante Asano. O jogo passou a acontecer no campo de defesa alemão, o bastante para a equipe de Hansi Flick se sentir desconfortável, exposta em sua clara dificuldade sem bola. Aos poucos, o time não conseguia proteger a área nem controlar a posse com o volume do primeiro tempo. A Alemanha se encheu de dúvidas, teve oportunidades de ampliar, mas sofreu os dois gols da virada. O Japão, que no primeiro tempo duvidava de si mesmo, encheu-se de convicções e coragem. No gol de empate, a Alemanha se permitiu ficar em inferioridade na sua própria área.

Mansur faz análise tática da derrota da Alemanha

Antes da Copa, Luis Enrique, treinador espanhol, disse uma frase sintomática: “De medo, não vamos morrer”. Não é simples dizer isso quando se dirige um dos elencos mais jovens do Mundial, que mandou a campo nos 7 a 0 sobre a Costa Rica oito jogadores com até 25 anos. Para uma equipe que tem como porto seguro a ocupação dos espaços no campo, a posse e o passe a partir dos seus meias, é notável como Gavi, de 18 anos, e Pedri, de 19, tiveram as rédeas da partida o tempo todo.

Lógico que se tratava de um rival de resistência débil, mas a mensagem de Luís Enrique estava posta no gramado: a Espanha jogará a seu jeito, à sua forma. Nem que isso imponha a ausência de jogadores com mais experiência e enorme talento, como Thiago Alcântara. Foi com muito controle da bola e, acima de tudo, controle dos espaços do campo, que a Espanha foi impiedosa com a Costa Rica. Asensio interpretava com precisão o papel de falso nove, e foi assim que saiu o primeiro gol: o time esvaziou a área para depois atacá-la, até Asensio atrair dois marcadores e criar o espaço para a combinação entre Olmo e Gavi.

Mansur faz análise tática da vitória da Espanha

O time se organizava em função da ocupação de zonas do campo. Fosse com Ferran Torres e Olmo abertos, ou com o movimento de Olmo para Jordi Alba ocupar o lado esquerdo. O fato é que a Costa Rica jamais achou a marcação. E a personalidade de Luis Enrique indica que a postura e o estilo serão inegociáveis. Na dificuldade, a Alemanha duvidou. A Espanha terá desafios maiores, a começar pelo encontro com os próprios alemães. Será um teste de identidade.