De volta em ‘Amor de mãe’, Regina Casé conta como é com os filhos e o neto: ‘Sou braba que nem onça’

A boa mãe à casa torna. Lurdes bate, mais uma vez, à nossa porta, pedindo licença para adentrar os lares dos telespectadores com sua ternura, seu sotaque gostoso e seu colo aconchegante. A partir de amanhã, com a volta de “Amor de mãe” ao horário nobre da Globo, o Brasil vai poder relembrar e acompanhar o desfecho da saga dessa mulher com cinco filhos, em busca de Domênico (Chay Suede), seu elo (vendido e) perdido.

À Canal Extra, Regina Casé, artista que se emprestou de corpo e alma à criação da autora Manuela Dias, falou sobre saudade, o encantamento com o ofício de atriz, maternidade, família, o amor pela natureza, amizades, vaidade, preconceito, pandemia e otimismo.

 

Regina Casé se mostra contente ao voltar às gravações da novela 'Amor de Mãe'
Regina Casé se mostra contente ao voltar às gravações da novela ‘Amor de Mãe’ Foto: João Pedro Januário

 

O xodó do Brasil

“Se todo mundo diz que está com saudade da dona Lurdes, imagina eu! Estou tão saudosa, que pendurei a bolsinha, a toalhinha, a sombrinha e os óculos dela na porta de casa, pedindo a bênção. Essa comoção é a prova de como essa personagem é forte. Tanto a que Manuela Dias escreveu quanto a que eu criei. Ela se tornou uma pessoa independente de mim. Levei sete meses até recomeçar a gravar a novela (por causa da pandemia), e nesse tempo eu fiquei só no meu sítio (na Costa Verde fluminense), não ia a lugar algum. Achei que ia chegar ao estúdio e falar com sotaque gaúcho, que não ia lembrar mais como ela era. Mas foi eu botar a roupa, os óculos e pendurar a bolsa no corpo, que Lurdes se materializou. Nem precisei de aquecimento”.

 

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Sofrimento na reta final da novela

“Não posso dar spoiler, senão me matam. Só digo uma coisa: perto de Thelma (Adriana Esteves, que criou Domênico, filho roubado de Lurdes), Carminha (vilã de ‘Avenida Brasil’) é uma fofa! Ela faz muita ruindade! Adriana não vai poder nem sair de casa, que vão em cima dela. E Lurdes não é uma das personagens que vai pegar Covid nessa fase. É muito cuidadosa, até produz máscara para vender”.

Atriz e apresentadora

“Eu gosto tanto de atuar! Há 20 anos não fazia uma novela (desde ‘As filhas da mãe’), mas não posso dizer que me arrependo de tudo o que fiz desde então: ‘Esquenta!’, ‘Central da periferia’, ‘Brasil legal’, ‘Programa legal’… Eu fui abrindo mão da atuação, achava que existiam muitas atrizes incríveis por aí. Mas quando vi o tamanho da Lurdes… Me rendi. As pessoas me questionavam por que eu tinha ficado tanto tempo longe. Estava fazendo laboratório Brasil afora e conhecendo mais de mil Lurdes para aprontar essa para vocês. Meu coração fica feliz com o reconhecimento. Agora, quero ficar como atriz por um bom tempo. Tenho loucura para fazer uma novela do João Emanuel Carneiro. Sinto que tem muito improviso nas obras dele, coisa que eu amo. Acho que a gente ia bater um bolão junto. Tipo Pelé jogando com Garrincha (risos)”.

Mãe Regina

“Eu sou tipo a Lurdes. Em filho meu, ninguém trisca (risos). Sou uma mãe bem dura, mas, ao mesmo tempo, carinhosa. Sou braba como uma onça, mas passo o dia lambendo a cria. Já vi, pela educação da Benedita (Casé Zerbini, diretora, de 31 anos), que dá certo. Minha filha se tornou uma mulher linda, amada, sem preconceitos, competente… Ela e Roque (de 7 anos) sempre me acompanharam nas viagens, no trabalho. Eu brigo, imponho limites, não dou mole. Hoje mesmo Roque falou: ‘Você é uma mãe que não me deixa fazer nada pra ficar feliz!’. Ele queria ver desenho às 8h da manhã. Aqui em casa, tela só pode depois que anoitece. De dia, sou moleca com eles. A gente dança, brinca, pula a porteira. Eles morrem de rir comigo. Geralmente, a mãe fica do lado de fora, pedindo pro filho sair de dentro d’água, né? Eu sou o contrário, fico com os dedos murchos de tanto tempo mergulhada, chamando todo mundo pra entrar. Nossa relação é de beijo, afeto e chamego 24 horas por dia”.

 

'Minha filha se tornou uma mulher linda, amada, sem preconceitos, competente'
‘Minha filha se tornou uma mulher linda, amada, sem preconceitos, competente’ Foto: João Pedro Januário

 

Avó é mãe duas vezes

“Brás tem 3 anos. Ele e Roque se tratam como irmãos, apesar de serem tio e sobrinho. Então, não dá para a Regina avó ser mais permissiva que a mãe. Se dou uma ordem pra um, o outro tem que seguir a mesma coisa. Eu, Estevão (Ciavatta, diretor e marido), Benedita e João (fotógrafo e genro) temos uma coisa muito coesa de procurar educar os dois pequenos da mesma forma”.

Brincadeira de menina e menino

“Benedita jogou muito futebol, era artilheira na minha rua. Nunca gostou de brincar de boneca. E Roque adora frequentar a cozinha. Ama fazer biscoitinho de aveia! Ele tinha um ‘filho’, um boneco bebê, quando era menor. Mas atualmente está ligado em jogos, brincadeiras físicas. No Rio, eu moro num apartamento. Aqui no sítio eles têm muito mais liberdade para brincar”.

Comunhão com a natureza

“Há um ano, estamos nós seis num sítio. No primeiro mês aqui, eu não me permitia nem encostar o pé na piscina, pensando nessa tristeza mundial que é a pandemia. Conforme o tempo foi passando, encontrei formas de ser feliz. Já passei por alguns sofrimentos na vida, como o acidente do Estevão, e me reergui. Hoje, vejo os meninos subindo em pitangueira, goiabeira, e me dá uma alegria! Antes, eu saía de manhãzinha para trabalhar e só voltava às 22h, nem via os dois. Você imagina a diferença, estando com eles 24 horas por dia, podendo ensinar os nomes de todas as árvores… A pandemia me proporcionou isso de bom”.

 

No sítio em que a família mora há um ano, Regina ensina os meninos sobre as árvores
No sítio em que a família mora há um ano, Regina ensina os meninos sobre as árvores Foto: João Pedro Januário

 

Vinte anos de ‘Um pé de quê?’

“Continuar como atriz não me impede de apresentar um programa aqui e outro ali. Tenho muita vontade, por exemplo, de voltar com o ‘Um pé de quê?’. Modéstia à parte, acho que a gente fez vanguarda. Agora compreendem o quanto é urgente e importante conhecer as árvores. Na época, era visto apenas como uma coisa linda”.

Visitas, só testadas

“Aqui a gente é jogo duro. Tenho amigos que ficam bravos comigo: ‘Estou com saudade, queria ir aí te dar um beijo’. Aí eu digo: ‘Fica uma semana totalmente isolado, faz o teste e me manda’. ‘Ah, mas eu já tive Covid!’. ‘Então volta ao médico e faz o IgG’. Meu protocolo é mais rigoroso que o da Organização Mundial da Saúde. E assim Caetano (Veloso) e Paula (Lavigne) vieram. Foi uma alegria, uma honra, porque ele nunca sai de casa. Chegou para ficar dois dias, acabou ficando uma semana e está doido pra voltar. Outro dia, foram Taís (Araujo) e Adriana (Esteves). Nossos maridos, Estevão, Lázaro (Ramos) e Vladimir (Brichta), estavam trabalhando, por coincidência, e elas vieram sem os filhos também, morrendo de saudade. Que delícia passar um dia inteiro, só nós três, falando pelos cotovelos, colocando para fora os sentimentos de tristeza, de loucura…”.

Trio ternura

“Cheguei em ‘Amor de mãe’ morrendo de medo. Apesar de ser mais velha que Taís e Adriana, eu era praticamente uma iniciante, nunca tinha gravado novela no Projac. Todos os meus projetos eram em floresta, na favela… Pro ‘Esquenta!’, eu só ia uma vez por semana, ficava oito horas seguidas dentro do estúdio e partia pra casa. Não tinha convivência na Globo. Então, cheguei sem saber como decorava texto, onde comprava comida, onde trocava de roupa… Sabe criança pequenininha que aparece pela primeira vez numa escola grande? Estava apavorada, e as duas me pegaram no colo. Elas redimensionaram pra mim as palavras amizade, sororidade e feminismo. Todos esses clichês idiotas de que uma mulher sempre puxa o tapete da outra, que é competitiva, caíram por terra com elas. Esse encontro foi muito rico, vai ser difícil desgrudar a gente”.

 

Fora da novela, Regina, Tais e Adriana são muito próximas
Fora da novela, Regina, Tais e Adriana são muito próximas Foto: Reprodução

 

Vaidade minada pela caracterização

“Nas ruas (antes da pandemia), eu costumava ouvir: ‘Nossa, você parece filha daquela da televisão!’, ‘Nunca imaginei você com roupa azul marinho!’, ‘Por que você nunca faz o papel da mulher com roupa boa, chique?’, ‘Por que você nunca aparece assim toda bonita na TV?’. Acho que, por não ser plastificada nem botocada, sou das poucas atrizes que podem fazer mulheres reais, comuns. E o inverso também é verdadeiro: não dá para escalar uma siliconada e plastificada para interpretar uma pessoa do povo, que não tem acesso a esses tipos de tratamentos estéticos. Eu não estou julgando quem faz, não. Só estou dizendo que tem poucas atrizes para esse tipo de papel, então eu acabo ficando com ele. Confesso que estou querendo fazer uma siliconada, loura, gata, a poderosa de um condomínio da Barra, para mostrar como sou versátil (risos)”.

Beleza e preconceito

“Nas minhas redes sociais, tento mostrar que beleza é ângulo. Não estou totalmente de bem com o espelho, não. Ainda tenho resistência em exibir detalhes do meu corpo de que não gosto. Foco nos meus pontos fortes. Tenho peitão, uso decote. Mas, quando me veem na novela e na rua, sabem o tamanho da minha bunda, não tem jeito. Faço aniversário semana que vem (dia 25 de fevereiro; esta entrevista foi feita no último dia 18), e acho que estou ótima pra minha idade. Mas não explano qual é. Não por vaidade, mas por causa do preconceito. Assim como o racismo e a homofobia, o ageísmo é horrível! Todo mundo vai envelhecer, ou morrer cedo, não tem opção. Se friso minha idade, isso pode ser usado contra mim no meu trabalho. Posso, perfeitamente, fazer uma mulher de 50 anos, com um truquezinho. Mas, se quem vai escalar o elenco tem em mente quantos anos tenho, já pensa: ‘Não dá pra chamar ela’. Não é que eu queira parecer eternamente uma garotinha, entende? Tenho muito orgulho de todos os anos vividos”.

 

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Uma única plástica

“Dezoito anos depois da cesárea da Benedita, resolvi consertar a cicatriz com uma abdominoplastia, mas deu tudo errado. Ficou pior a emenda do que o soneto, traumatizei. Não digo que um dia eu não venha a fazer outra intervenção estética, mas por enquanto eu prefiro evitar. Fico me olhando na televisão e reparando, talvez seria bom tirar um pouquinho (de pele) no contorno do rosto. Mas eu acho que plástica é igual a tatuagem: se você faz a primeira, não consegue parar mais. Harmonização facial está na moda, e eu estou bem desarmonizada. Harmonia, pra mim, só a do samba, do Xanddy, da quebradeira (risos)”.

Carnaval sem folia

“Sou carnaval na veia. Sofri horrores por não ter folia neste ano! Eu sempre me dividia entre Rio e Salvador. Aproveitei para assistir aos desfiles de carnavais passados, ensinei às crianças sambas-enredos antigos, mostrei a cultura do Ilê Aiyê e do Olodum da Bahia… Ficamos dançando dentro de casa mesmo. E vendo essa gente louca indo pra rua. Nossa, que falta de amor ao próximo! Vou dizer uma coisa do fundo do meu coração: acho muito difícil convencer quem pega ônibus e metrô lotado todos os dias pra ir trabalhar a não ir à praia no fim de semana, dar um mergulho. Isso eu acho compreensível e perdoável. A loucura é um monte de playboy, que não está nem estudando, se socar no meio da rua no Leblon. Isso é uma vergonha! Pelos meus primeiros cálculos, eu já estaria me vacinando na semana que vem (nesta), mas acabou a vacina, estou arrasada com isso!”.

Otimismo (in)abalável

“Nunca me iludi, achando que todo brasileiro era incrível, que nosso povo era só festa e coisas lindas… De jeito nenhum! Mas acreditava que nossos conflitos com os diferentes não eram tão perversos. Eu sabia que existia gente má, mas nunca pensei que o ódio fosse se manifestar de tal forma, que as pessoas fossem ostentar o preconceito com orgulho nas ruas e nas redes sociais. Esse Brasil revelado nos últimos tempos me entristece barbaramente. Eu continuo acreditando no país dos trabalhadores que ralam por cinco, seis dias, e no fim de semana ainda têm energia para festejar. Eu acredito na potência desse lugar naturalmente rico, no patrimônio que é a nossa Amazônia. É um absurdo o que se perde na economia por não se dar chances à massa criativa das favelas! É uma lástima o que se perde de saúde por não se investir na ciência! Não é papo de dar dinheiro para ajudar pobres e pretos, não; mas dar educação e oportunidade para o povo produzir mais riquezas e todo mundo viver melhor”.