Ecos da Passarela depois que o vírus atropelou o samba

Por Luiz Augusto Erthal

Paulo Faustino, o “Paulão”, como um dos coordenadores dos desfiles, conhece de cor o enredo do bloco da Liesa

Paulo Faustino – “Paulão” para os amigos e colegas de imprensa – é hoje uma das principais referências do carnaval carioca. Esteve presente em todos os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro desde a inauguração do Sambódromo, em 1984. Primeiro como assessor de imprensa da Secretaria de Obras e Meio Ambiente no primeiro governo Brizola, orgão responsável pelo desafio de colocar de pé em cerca de nove meses um dos monumentais projetos do arquiteto Oscar Niemeyer – a Passarela do Samba. Depois, como assessor de imprensa da Riotur e, por fim, como coordenador de imprensa, credenciamento e apuração dos desfiles do carnaval carioca, a convite da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

Paulão conhece como poucos o mundo do samba e vive intensamente o período dos desfiles do Rio de Janeiro. Há mais de 20 anos ele se mudou para Belém do Pará, para assumir a comunicação da extinta Paratur, e mora até hoje na capital paraense, mas nunca se desligou do carnaval carioca. Todos os anos, ele tira suas férias no mês de fevereiro para exercer a coordenação que ocupa há mais de duas decadas na Liesa. Este ano, excepcionalmente, não veio ao Rio neste mês de fevereiro porque o coronavírus atropelou o samba. A Passarela ficou às escuras pela primeira vez em seus 27 anos. Não teve carnaval.

O ping-pong a seguir é uma conversa de dois velhos amigos, mas é, acima de tudo, um reconhecimento do TODA PALAVRA a um dos mais importantes personagens, hoje, do carnaval carioca, que passou os últimos dias bem distante da Marquês de Sapucaí. Paulão fala um pouco sobre o papel que desempenha, sobre a importância do carnaval na economia popular e do país e conta algumas histórias marcantes dos bastidores da Passarela do Samba.

Já que não houve carnaval, vamos lembrar um pouco dos carnavais passados e ponderar a importância desse patrimônio cultural do Rio de Janeiro e do Brasil.

 

TP – O Sambódromo foi um marco do carnaval carioca. Você, que participou, como jornalista e organizador, de todas as edições do desfile das escolas de samba da Passarela concebida e criada pela tríade Leonel Brizola-Darcy Ribeiro-Oscar Niemeyer, como define a evolução do ponto alto da maior festa popular mundial nesses quase 40 anos?

 

PF – Acompanhei a construção da Passarela do Samba como assessor de imprensa da Secretaria de Obras e Meio Ambiente, no Governo Brizola. Estava na inauguração, em 1984 e, a partir de 1986, assumi a assessoria de comunicação da Riotur e, partir daí, comecei a participar da organização dos desfiles. A Passarela do Samba deu aos sambistas um palco definitivo e estruturado e o carnaval das escolas de samba ficou consolidado como o principal evento do país, com reconhecimento internacional. Depois, ao sair da Riotur, em 1993, fui convidado pela Liesa para participar na coordenação da estrutura de imprensa, credenciamento e coordenação da apuração dos desfiles. O modelo da organização do evento é seguido nos espetáculos similares pelo país.

 

TP – Qual o seu sentimento pessoal ao ver o Sambódromo vazio neste fevereiro de 2021?

 

PF – Meu sentimento no carnaval 2021 é de tristeza, mas resignado pela prioridade de vacinação de todos os brasileiros, diante da pandemia do coronavírus. É lamentável que milhares de pessoas que trabalham com o carnaval direta e indiretamente sejam fortemente atingidos. Em 2020,o Rio de Janeiro teve uma circulação de cerca de 4 bilhões de reais no carnaval, gerando grande arrecadação de impostos. Segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o Rio de Janeiro foi responsável por 1/3 da movimentação financeira das atividades turísticas relacionadas ao carnaval, em 2020. São Paulo e Bahia juntos representaram 1/3 e outros estados foram responsáveis pelo terço final. É um grande impacto negativo na economia da cidade e do estado.

 

Intermediando entrevista do Rei Momo Marcelo Reis, em 1985

TP – Nos seus quatro dias de glória, a Passarela do Samba tem sido um ponto de convergência anual onde até divergências políticas podem ser superadas pelo êxtase da folia. Você mesmo já deve ter visto muitos adversários abraçados na Passarela. Conte um pouco sobre esse poder agregador do Carnaval.

 

PF – As articulações políticas sempre passaram pela Passarela do Samba. Nos dias dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, o público assistente concentra, além do povo apaixonado pelo samba, turistas brasileiros e estrangeiros, trabalhadores, jornalistas do país e de todas partes do mundo e a elite política e empresarial. A Passarela se transforma numa cidade efervescente.

 

TP – Como você disse, o carnaval também atrai as atenções da imprensa brasileira e internacional, tornando o desfile das escolas de samba um evento de mídia de grande porte,mcomparável às grandes competições esportivas mundiais, como Olimpíadas e Copa do Mundo de futebol. Quais são os seus melhores registros de memória das coberturas jornalísticas do carnaval? E dos muitos episódios insólitos que a Passarela tem para contar, quais foram para você os mais marcantes?

 

PF – O carnaval recebe um grande contingente de jornalistas brasileiros e estrangeiros. Cuido junto com equipes da Liesa e Riotur desse atendimento, sempre buscando compatibilizar a cobertura jornalística e as transmissões, dentro do espetáculo. Para citar alguns sufocos, a presença na pista de Ayrton Senna, em 1992, o enredo Roberto Carlos, em 2011, e o do Zico, em 2014. E o caso do então presidente Itamar Franco e a modelo Lílian Ramos, com a genitália desnuda, além de outros tantos casos. Um episódio, em especial, marcante foi em 1999, a atriz Suzane Alves, na época fazia sucesso com a personagem Tiazinha, que se apresentava mascarada. No sábado de carnaval, véspera do desfile da Tradição, onde ela desfilaria como rainha, esteve, junto com seus produtores e diretores da escola, no bar próximo da Sala de Imprensa, onde se concentravam todos os jornalistas. A Tiazinha ficou uma hora debatendo como seria o acesso dela ao desfile e quais seriam os mecanismos utililizados para amenizar a pressão dos fotógrafos e não atrapalhar o desfile. Não foi reconhecida, sem máscara. No outro dia, uma loucura, toda a imprensa atrás dela. Controle complicado, mas o que foi combinado na véspera, junto desses mesmos jornalistas, sem eles desconfiarem, foi cumprido, sem prejuízo da cobertura e do desfile da Tradição.

 

TP – Em todo esse tempo, quando foi que o samba atravessou?

 

PF – Os momentos mais difíceis, nesse período, foram o incêndio no carro alegórico da Viradouro, em 1992, e os acidentes com os carros alegóricos da Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca, com feridos e uma vítima fatal, a radialista Liza Carioca, em 2017.

 

TP – Nesta última Quarta-feira de Cinzas você deveria ter coordenando a apuração do julgamento dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Quem, na sua opinião, levaria, em uma apuração hipotética, a nota 10 deste carnaval que não aconteceu? E quem ficará para sempre nas cinzas da quarta-feira?

 

PF – A nota 10 do carnaval 2021 vai para os profissionais de saúde do país inteiro. Incansáveis no combate à covid-19. Ficarão nas cinzas os negacionistas, que repelem o trabalho, apelos e orientações dos cientistas.

 

Na Passarela, com o sambista e compositor niteroiense Zé Katimba

FONTE: todapalavra