Filho afetivo conta em depoimento que Flordelis disse ‘estou livre’ após enterro do pastor Anderson

Julgamento de Flordelis chega ao segundo dia

Julgamento de Flordelis chega ao segundo dia

Alexsander Felipe Matos Mendes, filho afetivo da ex-deputada Flordelis, contou em depoimento que ela afirmou, após o enterro do pastor Anderson do Carmo, que estava “livre”.

Ouvido no segundo dia do julgamento dos réus pelo assassinato do pastor, Alexsander, uma das testemunhas, disse que foi até a casa da família em Niterói após o enterro.

Ele contou que, Flordelis disse, abrindo os braços: “Estou livre”.

 

Alexander pediu para ser ouvido por videoconferência e evitar ficar frente à frente com a ex-deputada federal e os réus.

“Eu não sei qual seria minha reação”, disse ele, que também explicou o motivo de não se referir mais a si mesmo como Luan Santos, um nome que, segundo ele, foi dado por Flordelis.

“Porque eu não quero mais nada que me lembre esse passado. Porque Luan foi ela quem colocou (Flordelis). Eu era o único que estava sem um nome, artístico, digamos. E o Santos eu coloquei em homenagem a ela”, afirmou.

Alexsander reforçou que havia facções diversas dentro da casa de Flordelis. Segundo ele, havia um bom tratamento se a pessoa concordasse com ela. Porém, em caso contrário, a situação era bem diferente.

“Quando você era contra Flordelis e quem estava com ela, você era o próprio demônio. Era Time A e Time B, time do bem e time do mal”, disse ele.

Alexsander também contou que estranhou atitudes de Flordelis logo após o enterro do pastor Anderson do Carmo. Ele disse que estava no quarto da ex-deputada Federal e ouviu uma pergunta que o surpreendeu:

“Ela disse: ‘Luan, qual é o número da sua roupa? A roupa dele dá em você?’ Eu pensei: ‘a gente acabou de enterrar e já está querendo desfazer da roupa dele’.

 

Flordelis no banco dos réus, no primeiro dia de julgamento — Foto: Brunno Dantas/TJRJ

Além de Flordelis e seu filho afetivo, André Luiz, outras três pessoas também participam do júri popular por envolvimento na morte do pastor Anderson do Carmo, no dia 16 de junho de 2019. São elas: Simone dos Santos, que é filha biológica de Flordelis; a neta Rayane dos Santos; e Marzy Teixeira, que é filha adotiva.

As tentativas de envenenamento de Anderson foram citadas por Alexsander. Ele contou que teve um diálogo com Simone, uma das rés do caso, em que ela citou ordens de procurar Marzy:

“A Flordelis ficou com raiva da Simone. Porque ela disse que não tinha condição de fazer. A Simone me contou que a Flordelis disse: ‘Já que você não vai fazer, então procura a Marzy para ela fazer isso”, relatou Alexsander.

 

Atraso no julgamento

 

Segundo dia de julgamento da ex-deputada federal Flordelis começou com atraso no Fórum de Niterói

Segundo dia de julgamento da ex-deputada federal Flordelis começou com atraso no Fórum de Niterói

julgamento começou com 1h37 de atraso porque André Luiz, um dos réus, não foi listado pela Secretaria de Administração Penitenciária, o que fez com que o processo demorasse mais do que o previsto.

André Luiz passou a noite na Cadeia Pública Patrícia Acioli, em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Os outros presos vieram do Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio.

Réus: Marzy Teixeira, ao fundo, Rayane dos Santos, Simone dos Santos (de óculos). À frente, Flordelis e o filho André Luiz — Foto: Brunno Dantas/TJRJ

Em nota, a Seap afirmou que o problema ocorreu por uma falha individual.

Segundo a Seap, a logística de transporte dos 5 custodiados no caso Flordelis “envolve a utilização de 5 veículos e 20 policiais penais. Uma falha individual ocorrida durante essa dinâmica ocasionou um atraso na chegada do preso André Luiz de Oliveira ao Fórum de Niterói. A SEAP pede desculpas pelo ocorrido e informa que o funcionário já foi afastado da função que exercia.”

André Luiz, filho de Flordelis, no primeiro dia de julgamento — Foto: Brunno Dantas/TJRJ/Divulgação

Início do julgamento

 

O primeiro a depor foi Tiago Vaz de Souza, policial civil da equipe de Allan Duarte na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI). O depoimento começou às 10h37 e durou pouco mais de duas horas.

Desde os primeiros momentos do segundo dia, Flordelis cobriu o rosto com um pano xadrez, que só deixava seus olhos à vista.

O inspetor relembrou os relatos de que teriam “dado fim” no celular do pastor Anderson do Carmo após sua morte. Mesmo assim, a equipe de policiais conseguiu acesso aos dados do celular da vítima.

“Eles obtiveram autorização judicial para que se baixasse o conteúdo na nuvem, e isso está nos autos”, afirmou Tiago.

O agente lembrou que Luan e Daniel, que testemunharam contra Flordelis na Delegacia de Homicídios, teriam recebido ofertas suspeitas após o crime.

Luan, segundo ele, ouviu de Flordelis que ela pagaria uma passagem para os Estados Unidos, onde gostaria de estudar.

“Foi visto por nós como uma tentativa de eliminar, de afastar uma testemunha. Daniel afirma que recebeu uma oferta em dinheiro”, disse o policial.

O inspetor também citou privilégios que existiriam dentro da casa entre os filhos e citou tentativas anteriores para tentar matar Anderson, que incluem envenenamento e até a tentativa de contratação de um pistoleiro.

Duas pessoas, segundo Tiago, chegaram a ser envenenadas nessas tentativas dentro da casa.

As informações também foram citadas no primeiro dia de julgamento pelo delegado Allan Duarte, que indiciou Flordelis pelo crime em 2020.

“Inclusive, a própria Rayane teria contatado Erica e perguntado se ela não conhecia nenhum bandido. Em determinado momento, apareceu na igreja um pistoleiro, mas ele estava lá e cobrou R$ 2 mil que teriam sido combinados, segundo ele por Rayane. Só não efetuou por motivos alheios à sua vontade”, disse Tiago.

O policial também especificou que, segundo a investigação, Flávio dos Santos Rodrigues, filho de Flordelis, pagou R$ 8,5 mil pela arma utilizada para matar o pastor Anderson.

“Você junta testemunhas, informações. Ele era dependente de Flordelis .Todas as circunstâncias apontam que Flordelis deu esse dinheiro. Lucas e Flávio foram para a Nova Holanda comprar essa pistola”, explicou o inspetor, ao ser questionado pela defesa de Flordelis sobre o que indicava que ela teria dado esse dinheiro para a compra da ara.

Em novembro de 2021, ele foi condenado a 33 anos e dois meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, porte ilegal de arma, uso de documento ilegal e associação criminosa armada.

Questionado pela defesa de Flordelis se a investigação “deduziu” que ela tinha participação nos planos para matar Anderson, Tiago lembrou dos planos encontrados em documento no bloco de notas de um dos envolvidos no crime. Em 2020, a própria Flordelis alegou saber da existência deste plano.

“Não é dedução, é investigação. Quando você lê o conteúdo, você percebe a cadeia de comando da família”, afirmou.

A defesa questionou qual seria a acusação contra André Luiz, e o policial explicou que, em mensagens trocadas com Flordelis, ele diz “ok” a uma mensagem de Flordelis que indicaria uma tentativa de envenenar Anderson do Carmo.

“Houve testemunhas que falaram em envenenamento. Houve internações. Na conversa analisada, Flordelis solicita ajuda de André que responde ‘ok’. Ajuda no sentido de envenenamento. ‘É só me ajudar’, teria dito Flordelis “, explicou o inspetor.

Alegação de abusos

 

Antes do começo do segundo dia de julgamento, Janira Rocha, advogada de defesa de Flordelis avaliou como positivo o começo do júri e disse que a tese de abusos sexuais e físicos cometidos por Anderson do Carmo como motivação para o crime continuará a ser citada:

“Aqui dentro existe uma acusada que é ré confessa [Simone]. Vamos mostrar com os assistentes técnicos que vão dissecar a questão dos abusos que aconteciam naquela casa e que foram o motivo pelo qual a Simone planejou a morte do pastor”, disse a defensora.

No primeiro depoimento do dia, no entanto, o inspetor Tiago Vaz disse que Flordelis nunca citou essa informação em depoimentos na DH de Niterói.

“Não havia nada aparente nem declarado que ele poderia ser um abusador ou algo do tipo”, afirmou.

Primeiro dia de julgamento

 

Flordelis durante o primeiro dia de júri — Foto: Brunno Dantas/TJRJ

primeiro dia de julgamento do ex-deputada federal Flordelis, acusada de ser a mandante da morte do próprio marido, o pastor Anderson do Carmo, durou mais de 11 horas e contou com o depoimento de quatro testemunhas na segunda-feira (7), no Fórum de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Inicialmente, por causa dos seus extensos relatos, apenas três testemunhas de acusação seriam ouvidas, mas Mariana Jasper, diretora da série documental “Flordelis: questiona ou adora”, ao ser citada em um depoimento, acabou sendo convocada diretamente do plenário para esclarecer a situação. Flordelis chorou muito quando viu parentes na plateia do júri.

A primeira testemunha a falar foi a delegada Bárbara Lomba, responsável por parte do inquérito que investigou a morte de Anderson do Carmo. Depois, veio o delegado Allan Duarte Lacerda, que concluiu as investigações .

Ele narrou algumas supostas tentativas de envenenamento malsucedidas e que teriam sido promovidas por Marzy Teixeira, filha adotiva de Flordelis. Contou também que houve uma tentativa de contratação de pistoleiros para executar o pastor.

A terceira testemunha a ser ouvida foi Regiane Ramos Cupti. Ela é ex-patroa de Lucas César dos Santos, um dos filhos adotivos de Flordelis também envolvido no crime e já julgado.

Regiane contou como conheceu Lucas e acabou criando laços com ele, que tinha pena do jovem porque sempre andava sujo e maltrapilho e, que após contratá-lo para trabalhar em sua oficina, começou a saber o que acontecia na casa da ex-deputada federal.

Uma dessas dinâmicas, segundo a testemunha, era a dos filhos preferidos, os “privilegiados”, que tinham roupas, comida e não trabalhavam na casa da ex-parlamentar, e os dos “escravos”, que trabalhavam, não tinha acesso à comida ou a uma de qualidade inferior e eram maltratados por Flordelis.

Lucas pertenceria a esse segundo grupo e, segundo relato de Regiane, começou a ser procurado por Flordelis e mais bem tratado para “matar o pastor ou arrumar alguém para matar”.

Regiane também citou que sofreu uma tentativa de atropelamento feita por uma das netas de Flordelis, e que a diretora Mariana Jasper estava no local presenciado tudo.

Convocação de última hora

 

Flordelis durante no primeiro dia de julgamento — Foto: Brunno Dantas/TJRJ

As defesas dos réus exigiram a convocação de Mariana, que estava no plenário, o que acabou sendo acatado pela juíza Nearis Arce.

No local, Mariana contou que estava no carro com Rafaela, neta de Flordelis, gravando e que a mesma disse que teria que parar comprar mantimentos para levar para a visita da avó. Ela concordou, e olhava pela lente da câmera quando viu Rafaela parar e com cara de assustada, sem, no entanto, fazer qualquer movimento brusco com o carro. À frente, na faixa de pedestre estaria Regiane.

“Como não vi o que aconteceu porque estava trabalhando, filmando. Considero tudo uma grande coincidência, já que não vi nenhum movimento brusco”, disse encerrando a oitiva que se deu apenas sobre o tema.

Violência física e sexual

 

No início da sessão, marcada para às 9h da manhã, mas que só começou às 11, a defesa Flordelis afirmou que vai tentar provar que o pastor Anderson do Carmo praticava violência física e sexual contra a ex-deputada.

“São inúmeras provas. (…) Inclusive, a análise no celular do pastor deixa claro como ele era um predador sexual. Tudo isso está demostrado. Fica bem provado que não há nenhuma prova que vincule os nossos clientes do homicídio cometido”, disse o advogado Rodrigo Faucz.

Já o responsável pela defesa da família de Anderson criticou a estratégia dos advogados de Flordelis.

“Ela teve cinco oportunidades para falar isso. Ela nunca narrou isso. Muito pelo contrário. Ela sempre vangloriou o Anderson, que era ‘o meu tudo’. É uma estratégia sorrateira. A prova do processo contradiz tudo o que está alegado”, disse Ângelo Máximo.