Gabinete criado por Bolsonaro para despachar no Rio custou R$ 1,7 milhão e nunca foi usado por ele

Criado num dos primeiros atos do presidente Jair Bolsonaro, no dia 2 de janeiro de 2019, o escritório montado no Rio para o chefe do Executivo despachar em seu domicílio eleitoral já consumiu R$ 1,7 milhão só em salários de servidores e jamais foi usado oficialmente pelo titular do Palácio do Planalto. O EXTRA esteve no local na última quinta-feira e não encontrou ninguém.

O gabinete regional, instalado no Palácio do Fazenda, no Centro, também abriga salas que costumam ser usadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, quando ele está na cidade. Ao todo, quatro servidores dão expediente no espaço reservado ao presidente da República, que passou por melhorias e ficou pronto em 2 de maio de 2019.

A própria Secretaria-Geral do Planalto, que cuida das questões administrativas da Presidência, confirmou por meio da Lei de Acesso à Informação que Bolsonaro nunca esteve no escritório.

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Embora tenha nascido em São Paulo, Bolsonaro fez carreira política no Rio, por onde se elegeu deputado federal sete vezes e onde mantém uma casa num condomínio na Barra da Tijuca. Desde que se elegeu, o presidente já fez nove viagens oficiais ao estado.

O local montado para que Bolsonaro pudesse trabalhar enquanto estivesse no Rio serviria ainda, segundo o governo, para lhe dar apoio administrativo e operacional, assim como para ministros de Estado, quando necessário. De acordo com a Presidência, no entanto, também não constam nos registos oficiais qualquer visita presencial de ministros. “Informamos que não foram localizadas agendas presenciais no Gabinete Regional do Rio de Janeiro em relação a essas autoridades”, informou a Secretaria-Geral, em referência a Bolsonaro e aos seus auxiliares de primeiro escalão.

Na tarde de quinta-feira, o EXTRA esteve no endereço do escritório presidencial fluminense, no Palácio da Fazenda. Acompanhada por um funcionário até o 10º andar, onde fica o escritório, a reportagem não encontrou qualquer sinal de servidores trabalhando.

Na sala informada como o espaço destacado para Bolsonaro não havia qualquer caracterização ou menção à Presidência da República. Todas as outras salas próximas estavam trancadas. Um funcionário do edifício, que disse trabalhar no prédio há 32 anos, afirmou que nunca “tinha ouvido falar no gabinete” reservado para o presidente Bolsonaro.

Por telefone, a capitã reformada da Marinha Andrea de Almeida Porto, que ocupa o cargo de assessora especial da Presidência no Rio, justificou que a ausência de servidores às 15h45m foi uma “coincidência”. Segundo ela, diariamente, há alguém trabalhando no local.

— Pode ser por causa do horário, mas com certeza todos os dias você vai encontrar gente lá. Nós trabalhamos de lá. O ideal, realmente, era você ter feito contato antes de ir — disse a militar.

Visita com a cara na porta

A reportagem retornou ao endereço no dia seguinte, também à tarde, mas, dessa vez, foi impedida de subir no edifício. Em novo contato telefônico, o assessor especial da Presidência, o coronel da reserva André Malícia, confirmou que o gabinete regional funciona no local visitado pelo EXTRA no dia anterior, numa sala no 10º andar, e também disse que o presidente da República jamais esteve no local.

Procuradas para comentar as informações trazidas na reportagem, tanto a Secretaria de Comunicação quanto Secretaria-Geral da Presidência da República não se manifestaram.

A manutenção de um gabinete no estado de origem do chefe do Executivo não é algo novo. Quando era o mandatário da República, Michel Temer, por exemplo, com frequência despachava do escritório da Presidência em São Paulo, onde ele mora atualmente.

EXTRA