Ibovespa tem maior alta no primeiro dia pós-eleição desde 1994, mostra levantamento

O dia seguinte à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais ficou marcado como o melhor resultado do mercado financeiro no dia seguinte à escolha de um novo mandatário para o Executivo dentre todas as eleições em que o real era a moeda brasileira

O levantamento foi realizado pelo economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, e mostra a variação percentual de bolsa de valores e dólar no Brasil, na segunda-feira após a decisão de quem seria o próximo presidente do país.

Na última segunda-feira (30), o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores de São Paulo, fechou em alta de 1,31%, a 116.037 pontos. O dia após a terceira vitória de Lula para chefiar o país registrou o maior crescimento percentual dentre todas as eleições do período.

A bolsa brasileira, inclusive, só teve alta no dia seguinte à eleição após a vitória de primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2010. Naquele dia, o Ibovespa teve alta de 1,26%.

Já o pior desempenho do Ibovespa foi na eleição de segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando a bolsa caiu 4,47%. Veja abaixo os resultados.

“Essa reação relativamente benigna dos mercados domésticos aos desenvolvimentos políticos está, em boa medida, associada às sinalizações de que o governo eleito no domingo está construindo alianças num arco amplo do espectro político”, diz Imaizumi.

 

“A escolha do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, para coordenar a equipe de transição, anunciada nesta terça-feira, reforça essa percepção”, afirma.

O economista também comparou os resultados dos pregões com o índice S&P 500, para checar a influência dos mercados externos. Apenas na eleição de Lula em 2006 e de 2022, o S&P deu resultado inverso ao Ibovespa.

Em 2006, o índice das 500 principais empresas norte-americanas subiu 0,04%, enquanto a bolsa brasileira caiu 1,09%. Já em 2022, o S&P registrou queda de 0,75%, com o Ibovespa marcando a alta de 1,31%.

“Parece ter sido um movimento totalmente interno mesmo. Vale notar, por exemplo, que no dia seguinte às eleições a nossa moeda registrou relevante valorização ante o dólar norte-americano, na contramão do comportamento observado pela maioria das divisas mundiais.”, diz o economista.

 

Real versus dólar

 

Imaizumi também testou a reação do real no “day after” das eleições presidenciais. Também em 2022 houve a melhor resposta da moeda brasileira frente ao dólar à vista, com queda de 2,21%.

Apenas na primeira eleição de FHC houve resultado parecido do real, com queda de 0,47%. Veja abaixo os resultados.

Como foi o pregão

 

Apesar da reação negativa à vitória de Lula no início do pregão, os agentes financeiros recuaram do mau humor para aguardar as primeiras sinalizações sobre as políticas e principalmente a equipe econômica do petista.

Em seu primeiro dia como presidente eleito, Lula foi acionado pelas principais lideranças mundiais e deu sinais de que recorrerá ao diálogo com o Congresso para avançar com sua agenda em 2023. É uma sinalização que Lula pode estreitar parcerias comerciais e trabalhar por um ambiente político menos turbulento.

Enquanto se desenrolam os primeiros passos, Marco Tulli, superintendente da Necton/BTG Pactual, disse nesta segunda que a percepção entre outros agentes financeiros é de que pode haver dificuldades e a necessidade de um trabalho muito grande de conciliação política para seguir com a administração do país em várias esferas.

Tulli chamou atenção para o efeito nas ações da Petrobras, dado o histórico da gestão petista na petrolífera estatal. Papéis da companhia listados em outros mercados já sinalizavam uma reação bastante negativa no pregão brasileiro.

Como mostrou o g1, as ações da petroleira destoaram do clima do pregão e a empresa perdeu R$ 34,2 bilhões em valor de mercado.

As ações ordinárias da Petrobras (PETR3) tiveram queda de 7,32% aos R$ 33,16, enquanto as preferenciais (PETR4) caíram 8,75%, a R$ 29,72.

Outra estatal, o Banco do Brasil seguiu curso parecido: queda de 4,87% dos papéis, a R$ 36,93. O valor de mercado caiu, portanto, R$ 5,1 bilhões.

Com a vitória de Lula, analistas do JPMorgan cortaram a recomendação de Petrobras para “neutra” e reduziram o preço-alvo das preferenciais de R$ 53 para R$ 37, enquanto a equipe do BTG Pactual, que já tinha classificação “neutra” para os papéis, diminuiu o preço-alvo de R$ 40 para R$ 35,7.

Rodolfo Angele e equipe do JPMorgan destacaram em relatório que os rumos estratégicos da Petrobras mudam com as mudanças na liderança política do país, e o presidente eleito criticou abertamente a forma como a empresa tem sido administrada e também discutiu prováveis ​​mudanças na companhia.

“As principais (mudanças) devem ser na alocação de capital e na política de preços dos combustíveis vendidos no mercado interno”, estimam, acrescentando que o plano de governo do PT prevê que a Petrobras invista em refinarias para permitir que o Brasil dependa menos do combustível importado.

Os analistas do banco norte-americano ainda apontam que o mesmo plano também prevê a implementação de um mecanismo que crie um “preço brasileiro” para os combustíveis.

Para eles, muitas dessas incertezas já estão no preço das ações e a governança e o escrutínio do público em geral desempenharão um papel importante na empresa. No entanto, avaliam que as cotações não refletirão totalmente os fundamentos até que investidores tenham clareza sobre exatamente o que mudará na empresa.

G1