Leandro Lehart recorre de condenação por estupro e cárcere privado; Justiça decidiu que cantor pode se defender em liberdade

A defesa do cantor Leandro Lehart, de 50 anos, recorreu nesta semana da condenação por estupro e cárcere privado contra uma mulher em outubro de 2019. A pena para o líder do grupo Art Popular foi de nove anos e sete meses e previa regime inicial fechado, mas o juiz decidiu que Lehart pode recorrer em liberdade.

Nesta sexta-feira (23) foi publicado o edital de intimação dos advogados no Diário Oficial de Justiça. O caso será analisado pela segunda instância.

O artista apagou todas as imagens e os vídeos de seu perfil no Instagram e manteve apenas uma publicação: uma nota em sua defesa postada depois que o caso veio à tona. No texto, Leandro afirma estar sendo vítima de “uma grande injustiça” (veja mais abaixo). Segundo o Ministério Público, o artista compareceu a todas as audiências, mas negou a acusação.

O Fantástico entrevistou Rita de Cássia Corrêa, a mulher que denunciou o músico. Ela contou que sofreu um abuso grotesco e teve a vida destruída. Eles se conheceram em 2017 e tiveram um relacionamento. Em 2019, a vítima passou por uma situação violenta na casa do artista.

Segundo apurado pelo g1, o cantor falou à vítima na noite do crime que, se ela “não tivesse gostado [da situação escatológica pela qual passou], iria se acostumar nas próximas vezes”. Em relato à Justiça, a vítima afirmou que Lehart disse, na ocasião, que outras mulheres já haviam passado por aquilo.

‘Rouca de tanto gritar’

 

Rita afirmou que, na noite do crime, ficou com hematomas e rouca de tanto gritar de desespero quando foi trancada no banheiro da residência. Ela declarou ao Fantástico que Leandro foi agressivo, a imobilizou e, então, cometeu um ato grotesco e escatológico de violência:

“Na minha boca. Eu já comecei a me debater e pedindo para ele parar. E tentando tirá-lo de cima de mim, mas eu não conseguia. Ele ainda se masturbou até chegar ao orgasmo”.

Nos autos do processo, Rita disse: “[Eu] não tinha forças para tentar sair dali, pois estava com medo e abalada. Pois lutei com o autor tentando evitar tudo aquilo”. Ela foi libertada ao amanhecer, quando questionou o cantor sobre as agressões sexuais. Depois que a vítima foi solta, o cantor pediu que a ela que “se acalmasse”.

Rita passa por tratamento psicológico. Ela trabalhava no sistema público de transporte da capital paulista e saiu do emprego por ter ficado abalada com a situação. A mulher teve diagnóstico de estresse pós-traumático e chegou a tentar suicídio.

Como a vítima ficou sem renda e estava passando problemas financeiros, o cantor chegou a encaminhar a ela cestas básicas. O caso foi registrado meses depois de Rita ter procurado uma rede de apoio que ofereceu ajuda psicológica e jurídica.

‘Me joguei de um lance de escadas querendo fugir de tudo que eu estava passando’, diz vítima de Leandro Lehart

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Mensagens mostram confissão

 

Mensagens que mostram a confissão de Lehart foram encaminhadas pela vítima à Justiça. O cantor confirmou que enviou as mensagens, mas negou o crime: “Falou tal frase, apesar de tal fato não ter ocorrido, para deixá-la ‘mais à vontade’ e ela esquecer naquele instante da vontade de se matar” (veja abaixo).

  • 30/08/2020 – 15:30:34: “de qq maneira somos adultos.. se vc se sentir no direito de me denunciar, faça. Não ficarei chateado.”
  • 30/08/2020 – 15:30:57: “posso até fazer uma declaração pra vc. (…) eu assumo isso, com muita vergonha mas assumo (…) tá ai… guarda esse nosso papo que é a sua prova definitiva.”
  • 30/08/2020 – 15:50:27: “já deixei aqui minha confissão (…) tenho que fazer uma auto critica, e se eu errei, vou pagar.”

 

Leandro Lehart é condenado a 9 anos de prisão por estupro e cárcere privado

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A condenação

 

“Condeno o réu Paulo Leandro Fernandes Soares [Lehart] pelos crimes de estupro e cárcere privado, previstos nos arts. 213, caput, e 148, § 2º, do CP, à pena de 9 anos, 7 meses e 6 dias de reclusão e 24 dias-multa, em regime inicial fechado, nos termos da fundamentação supra. Condeno o réu ao pagamento das custas processuais. O réu poderá apelar em liberdade”, escreveu o juiz.

A advogada criminal e representante da vítima divulgou uma nota em que disse anteriormente:

“O caso é repugnante! Um dos piores com o que tive contato durante quase 17 anos de profissão. É a síntese do horror, da subjugação e do ódio dos homens às mulheres.”

 

O que diz Leandro Lehart

 

Em comunicado, Lehart escreveu: “Estou sendo vítima de uma grande injustiça, mas a verdade vai prevalecer em breve. São 40 anos de carreira e 50 anos de vida acreditando na justiça, e mesmo que ela tarde, ela não falha. E a maldade não prevalecerá nunca. Obrigado por tudo”.

A nota da defesa diz: “A defesa técnica de Leandro Lehart, em atenção aos pedidos da imprensa por comentários, informa que o caso corre em segredo de Justiça e ainda pende de decisão final, o que impede maiores considerações quanto aos fatos. De toda sorte, Leandro e seus advogados seguem confiantes no Poder Judiciário e que a verdade prevalecerá, com sua consequente absolvição”.

Quem é Leandro Lehart

 

Multi-instrumentista e autodidata, o artista toca mais de 30 instrumentos e foi ao longo de 10 anos (no final da década de 1990 e início dos anos 2000) o maior arrecadador de direitos autorais do Brasil.

Leandro ainda tem em seu currículo o posto de diretor do Centro Cultural de São Paulo (CCSP), um dos primeiros centros culturais multidisciplinares do país. O músico permaneceu no posto de maio de 2021 a fevereiro de 2022.

Lehart é também embaixador do projeto O Samba Cura, criado em 1997 em parceria com a ONG Ação Solidária Contra o Câncer Infantil.

Segundo dados do Ecadnet, Leandro Lehart tem 369 obras musicais em seu nome, além de 899 fonogramas gravados com sua voz.

Entre as composições, estão “Pimpolho”, “Agamamou”, “Amarelinha”, “Irae”, “Telegrama”, “Temporal” e muitos outros clássicos do samba e do pagode que marcaram a década de 1990.

G1