‘Não vou (a Brasília) nem ganhando nem perdendo’, diz Tite, técnico da seleção brasileira

Tite chegou acompanhado de Cléber Xavier, seu auxiliar técnico, para mais um dos muitos compromissos na sede da CBF, no Rio. Ao longo de cerca de 1 hora de conversa com O GLOBO, mesmo diante do presumível cansaço, pareceu leve. A poucas semanas da luta pelo hexa no Catar, o treinador se esforça para carregar somente o peso que é capaz de suportar. É assim que lida, por exemplo, com o Mundial realizado semanas depois de uma eleição que divide o país: a camisa amarela se tornou símbolo do espectro mais à direita da política e jogadores importantes, como Neymar — que ontem participou de live com o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) — se engajam abertamente. Técnico e CBF tentam blindar a seleção desse debate, reforçam que os jogadores têm liberdade para se posicionar e que isso não mexe com o ambiente, mas sabem que a polarização afeta a forma como a torcida se relaciona com a seleção.

Dentro de campo, Tite comemora o bom momento e conta que a definição dos 26 convocados será apenas na véspera do próximo dia 7, quando divulga a lista final.

A seleção brasileira vive hoje seu melhor momento?

Sim. Não sei o quanto tivemos de oscilação, mas é o melhor momento. A construção nos dá segurança e confiança. Se vamos ganhar a Copa do Mundo ou não, é outra história. Em alguns momentos, tivemos o resultado, mas não tivemos a beleza e a criatividade que gostaríamos. Isso foi na Copa América de 2019. Depois da competição, você ia, cobrava e o jogador não dava a resposta. Fomos campeões, mas precisamos fazer outras coisas. Aí uma nova geração surgiu. Os números são secundários, minha primeira análise é qualitativa, mas não posso ignorá-los. Eles são os melhores de qualquer treinador da História, de todas as campanhas. Esse é o nosso trabalho. Tem sido prazeroso.

E é possível jogar uma final de Copa com cinco jogadores ofensivos, como você já testou?

Não sei, vai depender da análise do adversário e do quanto essa equipe se consolidar também. O campo fala. Mas se você olhar os atletas, o Paquetá é competitivo, mas também dá uma fase defensiva. Richarlison compensa as infiltrações de Neymar, vindo de trás. O Raphinha, exemplarmente, faz essa marcação. Vini está evoluindo para isso.

Esse esquema tem a ver com essa busca por qualidade?

Na época da Copa América de 2019, não tínhamos o Antony, o Raphinha. Vini ainda estava se adaptando ao Real e Martinelli ainda completando treino conosco. Essa geração chegou e opa! Foi a afirmação deles que deu essa condição.

A lista está fechada?

Detalhamos a lista de 55 nomes, a do dia 21/10. Nela, tem jogadores que não foram chamados ainda nesse ciclo inteiro. Tem jogadores chamados bem no começo. Um mês é muito tempo no futebol.

Como vai aproveitar esses três jogadores a mais na lista?

Vou chamar dois do processo criativo, ofensivo e um versátil do primeiro meio-campista para trás.

Como vai ser até a convocação?

Normal e natural, igual à preparação para os 55 atletas. Por isso, temos que monitorar os jogos in loco, acompanhando tudo. É jogar limpo com os jogadores. A observação para a lista vai até o dia 6.

Tem algo que faria de diferente de 2018?

São ciclos diferentes, etapas diferentes. Uma foi a recuperação. Eu joguei minha carreira toda nela. Eram seis jogos disputados nas Eliminatórias, estávamos na sexta colocação. Agora é uma construção de equipe, o processo todo é muito diferente. Mas, ao mesmo tempo, a disputa em 2018 trouxe um legado bom, a experiência que agora tenho, é uma naturalidade para que eu possa experimentar na Copa.

É diferente ter tanto tempo à frente do grupo?

Você ganha a confiança dos jogadores, mesmo sem ter tanto tempo de trabalho direto com eles. Você trabalha com sua comissão, propõe discussão. Uma vez o Casemiro chegou para mim e disse: “Tite, nunca deixe de ser apaixonado pelo futebol”. Eu ouvi aquilo e fiquei olhando. É o prazer que eles veem em nós, é o jogador sentir que uma grande atuação dele é nossa. É um senso de pertencimento.

Você acha que pode ter isso com os torcedores?

Eu não represento uma série deles. E não tenho essa pretensão. Não represento a todos e haverá quem torça contra. Assim como outros tantos não me representam, ou por modelo, ou por conduta. Esse é o mundo real.

Como lida com o fato de que há pessoas com resistência à camisa da seleção pelo que ela passou a representar na política nos últimos anos?

Eu digo para você: pega essa torcida e deixe que ela fique com essa batalha. Eu não luto essa batalha. A batalha do futebol é a da educação, da competição para ser melhor, mas com limites éticos, e a de ser o mais arrojado, o mais criativo. E a de respeitar nossas origens. Pegue esse peso e fique com eles, eu digo: “essa batalha fica contigo, não transfira para mim.”

Então nunca temeu sobre como as pessoas iam interpretar a seleção nesse momento político?

Eu temi a reação das pessoas na Copa América (em 2021), por causa da Covid-19. (…) Nós fizemos uma reunião com o presidente da CBF, eu, seis atletas e o Juninho (coordenador de seleções). Foi unânime o pedido de não realização. Eu, Neymar, Alisson, Danilo, Casemiro, Marquinhos e Thiago Silva. Pedimos: “não façam, por favor”. Eu encabecei e fiz o pedido, porque não havia atmosfera humana. Então, quando há necessidade de se posicionar, a gente faz. Às vezes, sem o devido alarde. Ninguém deixou de se posicionar.

Foi seu momento mais difícil?

Sim e tivemos maturidade, enquanto grupo, exemplar. Eu me orgulho muito. Ninguém é alienado, todos particularmente têm suas posições, que as faça no particular. Aqui a prioridade, qual é? É a seleção brasileira? Então é isso. Tem outras questões importantes, mas elas não são nossa batalha. O futebol não vai trazer uma igualdade social maior. Ele vai trazer alegria, senso educacional, ético, competitivo, lúdico. Cada um com suas responsabilidades.

Há uma diretriz para vocês sobre posicionamento político?

Absolutamente não. Democraticamente, para usar o termo, e não me sentiria nunca à vontade. Eu faço através do meu exemplo, falamos entre nós sobre aquilo que é nossa realidade, o futebol.

Vocês foram contra a Copa América e ela aconteceu. Acha que pode ocorrer isso: ir à Brasília, em caso de hexa, contra sua vontade?

Eu não vou, nem ganhando nem perdendo. A seleção pode ir e eu não vou. É uma questão pessoal. E ela não depende de quem vai ganhar a eleição. Eu falei isso (pela 1ª vez) quando era o Michel Temer presidente. Não me sinto confortável, não é o meu chão.

Gostaria de ver alguém de sua comissão no seu lugar?

Não queremos interferir na decisão que não é nossa. O Tite não fica e os mais diretos também não. Eu gostaria que estrutura permanecesse, a estrutura de alto nível.