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Polícia Civil investiga ataques racistas contra intérprete da Mocidade de Padre Miguel

Ronny Caetano, o Roninho, foi vítima de injúria racial por usuários que acompanhavam live da final de samba-enredo da escola

Rio – A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) investiga o caso de injúria racial sofrida pelo intérprete da Mocidade Independente de Padre Miguel Ronny Caetano. O cantor foi alvo de comentários preconceituosos durante transmissão ao vivo da final do samba-enredo, que aconteceu no último domingo, na quadra da escola, em padre Miguel, Zona Oeste do Rio.

“É um absurdo que tenhamos que passar por isso. Num primeiro momento eu nem acreditei que isso tinha acontecido. Depois que eu vi, fiquei muito chateado. Ninguém merece passar por qualquer tipo de discriminação e preconceito, ainda mais num ambiente que envolve o samba”, disse Ronny Caetano.

Para ele, a internet proporciona uma sensação de impunidade para os racistas. “Eles usam a internet como se fosse uma máscara para conseguir falar o que quiserem, ofender as pessoas e cometer crimes. Não tem explicação para esse tipo de atitude. É lamentável”, afirmou.

De acordo com a Polícia Civil, os dados relativos à live da Rádio Arquibancada, de onde os usuários fizeram os ataques racistas, já foram requisitados e as investigações estão em curso. Os agentes da Decradi buscam os informações das contas usadas na prática criminosa para identificar os responsáveis.

Um desses comentários preconceituosos se referia ao intérprete como “neguinho” e pedia que ele fosse retirado do palco. Em outra postagem, um usuário pediu que fosse cantado o samba de enredo ‘O Cacho de Banana’, de 1964, da escola de Padre Miguel. No momento em que perceberam o conteúdo racista, os responsáveis pela transmissão se manifestaram contra as falas compartilhada.

Tolerância zero
Para a pesquisadora e escritora Rachel Valença é preciso ter tolerância zero para com a prática de racismo. “O racismo é sempre inadmissível, sobretudo numa cidade majoritariamente negra como o Rio de Janeiro. É uma vergonha que alguém que se diz admirador das escolas de samba, expressão cultural da negritude, se permita uma atitude agressiva e nojenta como essa. Louvo a atitude da Rádio Arquibancada, que agiu prontamente para condenar e punir um comportamento tão absurdo. Com o racismo, tolerância zero”, disse a especialista.
O responsável pela Rádio Arquivancada, Anderson Baltar, disse que agiu logo que percebeu os comentários racistas. “Nos manifestamos dizendo que não queríamos esse tipo de audiência. Repudiamos os comentários. Ficamos sem entender o motivo para uma pessoa tão preconceituosa estar em uma live de samba”, lembrou.
Roninho, como é conhecido, tinha acabado de entrar no palco para se apresentar, enquanto os votos para a final do samba-enredo eram computados, quando os ataques começaram na live.
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Apoio da escola

A Mocidade Independente de Padre Miguel também se manifestou sobre o caso em sua rede social. Em nota, a escola demonstrou repúdio aos comentários e solidariedade ao intérprete: “Era para eu acordar só falando da minha linda final de ontem. Mas, infelizmente, vivemos em um país onde o racismo está em todos os locais ao nosso redor. Venho em nome de toda diretoria, segmentos e torcedores, me solidarizar e dar forças ao meu cantor Ronny Caetano pelos ataques racistas recebidos ontem em comentários feitos no chat do YouTube durante a live da Rádio Arquibancada”.

A nota foi acompanhada e apoiada por outras agremiações na rede social. A Unidos da Tijuca foi uma das escolas que se manifestou: “Jamais sucumbiremos”. A Imperatriz Leopoldinense também mandou seu apoio: “Não passarão! Toda nossa solidariedade, irmã”.

Intérprete oficial da União da Ilha e amigo de Ronny, o cantor Igor Vianna também repudiou os comentários racistas contra o colega intérprete. “Bom dia para todos, menos a você que é racista (mesmo que encubado)”, compartilhou o cantor no Facebook.